Uma vida mais simples é possível?

Durante esta semana temos falado de doenças, mortes, desequilíbrios e dominação na relação entre a sociedade e a natureza. Hoje, para tornar as coisas um pouco mais leves, resolvi comentar um dos filmes que mais me impactou até hoje, por me forçar a pensar "fora da caixinha", por me jogar na cara a idiotice de muitos dos valores que eu cresci pensando serem inexoráveis na busca do chamado desenvolvimento. Estou falando de um filme francês de 1996, chamado "La Belle Verte" (literalmente "O Belo Verde", mas que recebeu o título de "O Planeta Verde", em Portugal, e "Turista Espacial" na versão brasileira). O filme foi dirigido pela renomada diretora Coline Serreau que, inclusive, interpreta a personagem principal.


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Quando falamos de ficção científica, via de regra nos vêm à cabeça aquelas distopias futuristas ao estilo de Blade Runner (o qual, aliás, foi lançado em 1982 e projetava para novembro de 2019, uma Los Angeles destruída, que felizmente não se confirmou); a quase totalidade de nós pensaria em naves espaciais, tecnologias altamente sofisticadas e uma natureza inexistente ou muito rara a ponto de ter que ser protegida por armas, ao estilo de “Hardware - O Destruidor do Futuro”, de 1990. Seja como for, quase todas estas ficções que apareceram muito intensamente nas décadas de 80 e 90, quando nos preparávamos para a as incertezas do novo século, tem em comum a enorme desconexão entre os seres humanos e a natureza (objeto de toda a nossa discussão dessa semana). Já hoje, em que pese o fato de que o mundo não deva desaparecer nos próximos meses (assim o esperamos) podemos observar esta desconexão com muita facilidade: todos os shopings e todas as construções modernas de todas as grandes cidades do mundo, tem algo muito parecido, quando não são praticamente idênticos: ambientes artificiais de grandes construções de concreto e vidro, sem criatividade, sem liberdade e sem emoção; estruturas habitadas por pessoas ansiosas, ligeiras, igualmente sem criatividade, com emoções reprimidas e que não pensam em liberdade, ou porque a temem ou porque não tem tempo para usufruí-la. Neste modelo de progresso que nos vendem desde o berço, nós, os humanos, vivemos uma abstração civilizatória que se descola da Terra, suprime a diversidade e nega a pluralidade das formas de vida e de existência. 

Em "La belle verte", não há nada disso, muito antes pelo contrário; é uma das raríssimas obras de ficção que exerce todo o seu poder criativo para nos surpreender com a simplicidade do profundo. O filme inicia em um pequeno planeta em que seus habitantes evoluíram a tal ponto que entenderam o que é efetivamente essencial na vida, e vivem em perfeita harmonia com a natureza. De tempos em tempos, alguns deles fazem excursões a outros planetas, seja para observá-los ou mesmo ajudá-los em seu processo evolutivo. Não sem motivo, há 200 anos nenhum dos habitantes desse planeta quer vir para a Terra. Até que um dia, por razões pessoais, uma mulher decide se voluntariar para uma missão de reconhecimento acerca dos progressos feitos pela Terra desde a última visita, há duzentos anos atrás, quando estávamos iniciando a revolução industrial. Ela aterriza em Paris, e com uma visão extremamente bem-humorada acerca dos progressos dos quais tanto nos orgulhamos, a diretora e protagonista do filme vai nos fazendo pensar que o nosso progresso é um gigantesco castelo de vento. Dada a imensa capacidade mental da personagem, ela tem o dom de "desconectar" as pessoas, ou seja, despilas dos medos, preconceitos e ansiedades que nos dominam e reconectá-las com sua essência natural, capaz de fazê-las experimentar o prazer de estar vivo, de dançar, de cantar e de perceber o outro.

Ao mesmo tempo em que coloca em xeque todas as supostas conquistas da vida moderna, o filme nos proporciona um respiro de vida mais leve.  Ele nos faz pensar se o modelo civilizatório que adotamos representa de fato um avanço ou se é um tremendo atraso encoberto por uma brutal crise de percepção sobre a qual tanto nos fala Fritjof Capra? Nosso afastamento da natureza, afastamento das pessoas, afastamento do problemas reais, esse sono profundo que vive a sociedade do século XXI na ânsia de produzir mais, pra consumir mais, pra produzir mais, pra consumir mais... gerando uma espécie de loop infinito, uma armadilha da qual só saimos mortos. É fascinante perceber as pequenas e grandes críticas que esse filme faz, com muita sutileza e humor. Questões como porque ainda se usa o dinheiro? Porque diversas pessoas estão sofrendo de males do estômago? Porque a água é toda engarrafada ou encanada? Porque ainda andam em carros? Porque penduramos cadáveres de seres vivos nos açougues?

Ao contrário de tudo o que aprendemos na escola, percebemos no filme que a felicidade não provém do progresso científico e econômico, mas da capacidade de ampliarmos nosso horizonte existencial na reconexão com a natureza, enriquecendo nossas subjetividades, e vivendo-as com a liberdade que formos capazes de produzir com nossa autonomia, curiosidade, paixão e criatividade; sem modelos pré-formatados de vida, sem concepções prontas de sucesso, sem pílulas de felicidade que administram nossa vida a partir de uma artificialidade química dos grandes laboratórios.

Enfim, La belle verte é uma forma suave de repensar a vida, e não há como não fazê-lo neste momento que estamos vivendo de uma pandemia global. Ou será que podemos imaginar que dentro de algum tempo teremos adquirido resistência ao Coronavírus e que a vida retomará do ponto em que parou, mesmo depois de termos visto corpos serem depositados em frigorífico, tal qual fazemos com o gado? Será que continuaremos sem nos dar conta de como a humanidade é vulnerável e dependente deste monstro global que ela mesmo alimentou, chamado mercado? E que a única maneira de nos livrarmos disso, é pensando mais simples, desejando mais qualidade e menos quantidade, sentindo mais e acumulando menos, viajando mais para dentro de si do que para longe de casa...

Você pode assisitr ao filme no link abaixo:










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