Um Verde cada vez mais desbotado!

Desde que o conceito de "desenvolvimento sustentável" começou a circular mundo a fora, a partir da famosa publicação de 1987 do grupo liderado pela médica e ex-Primeira Ministra da Noruega Gro Harlem Brundtland, intitulado "Nosso Futuro Comum", a ideia de substituição da matriz energética mundial esteve presente. O abandono da energia fóssil (produzida a partir da queima do carvão, petróleo e gás natural), e a sua substituição por uma energia "mais limpa", como a energia solar, eólica ou de biomassa, se tornou um mantra entre ambientalistas que, desde o início, denunciaram que as mudanças climáticas (acentuadas pelo uso indiscriminado da energia fóssil) representariam um papel decisivo no colapso da sociedade humana.

Não há nenhuma dúvida de que eles estavam certos quanto ao impacto do uso da energia fóssil, pois não é preciso ser muito inteligente para entendermos que o uso ilimitado de recursos em um planeta fisicamente limitado, só pode levar ao esgotamento destes recursos e, como decorrência disso, à perda das condições materiais que sustentam a vida humana na Terra. Desde o estudo do geólogo americano Marion King Hubbert, em 1956, diferentes matemáticos e especialistas em modelagem já lançaram um sem número de estudos tentando datar o colapso da sociedade que parece depender dos hidrocarbonetos tanto quanto um indivíduo depende do oxigênio. O " Pico de Hubbert", ou seja, o ponto máximo da exploração do petróleo, a partir do qual a produção começaria a diminuir progressivamente até o esgostamento, é motivo de muita controvérsia, já que depende não apenas do volume explorado (que varia em função da demanda, a qual, por sua vez, oscila conforme as crises mundiais da economia), mas das possibilidades de expansão das jazidas exploráveis (que se ampliam na medida em que novas áreas são decobertas, como no caso do Pré-Sal, ou com o derretimento do círculo polar ártico que libera novos depósitos antes inacessíveis, ou mesmo com novas alternativas tecnológicas como no caso da retirada de óleo a partir de areias betuminosas, por mais impactantes que sejam estas modalidades). Seja como for, até os mais otimistas dos geocientistas é obrigado a concordar que o pico do petróleo está situado em algum momento entre os anos de 2005 e 2025. 

O que os ambientalistas mais ingênuos não foram (e ainda não são) capazes de compreender, é que a alternativa apresentada à energia fóssil está muito longe de ser uma grande solução para a sustentabilidade do planeta. A dita energia renovável tem muito mais daquilo que chamamos de "greenwashing " (maquiar os verdadeiros impactos de uma ação ou produto por meio de uma propaganda de sustentabilidade) do que de sustentabilidade real, e isso acaba sendo escancarado no último documentário apoioado e promovido pelo premiado cineasta americano Michael Moore. O documentário "Planet of the Humans" foi escrito, dirigido e produzido por Jeff Gibbs, tendo sido lançado em 2019 nos Estados Unidos, mas só agora disponibilizado abertamente em homenagem ao Dia Mundial da Terra (22 de abril) de 2020.



O documentário tem o poder de retirar o pouco chão que ainda sobrava sob os pés dos otimistas "capitalistas verdes", que advogam a possibilidade de construirmos um modelo de uso sustentável da natureza mesmo dentro deste modelo de produção desigual e predatório em que vivemos. Até mesmo por isso, não faltam críticas à produção de Gibbs, por colocar a nú a falsa ilusão das energias renováveis, exatamente em um período histórico em que as mudanças climáticas nos forçam a acelerar a descarbonificação da economia. As críticas, no entanto, não tem a profundidade necessária para colocar em xeque a questão central da obra, já que se tratam, na sua grande maioria, de correções acerca de dados e estatísticas que, mesmo que já tenham se alterado no período entre a elaboração do roteiro e o lançamento do filme, não deixam de revelar o essencial: a substituição da matriz energética por supostas energias "limpas" é uma grande jogada de marketing  da economia capitalista, que pouco resolve a nossa dependência da energia fóssil.

Porquê o autor chega a esta conclusão? Pelo simples fato de que adotar uma fonte de energia renovável não significa que a matriz da geração energética seja renovável; muito pelo contrário, pois em alguns casos o investimento em recursos não renováveis para montar uma usina de energia renovável acaba "consumindo" rigorosamente todo o recurso natural economizado pela substituição da fonte energética. 

Vejamos, por exemplo, o caso da energia solar, uma fonte renovável e não poluente, que utiliza gratuitamente a luz solar que chega à superfície da Terra. Comecemos pelo básico: a conversão da energia luminosa do sol em energia elétrica é feita a partir de células fotovoltaicas instaladas em paineís próprios para isso. Tais células, para sua fabricação, exigem o uso de silício de alta pureza; o silício é um elemento mineral encontrado no quartzo, seja pela exploração mineral direta ou pelo uso do quartzo presente na areia. Seja como for, a produção de silício com alto teor de pureza envolve a redução de sílica em fornos industriais com 2000°C de temperatura, que emitem gases estufa e usam qual combustível? Carvão! Em outras palavras, queimamos carvão para produzir uma placa solar que nos permita não queimar carvão. Isso sem falar que as impurezas dessa redução são removidas através de processos químicos adicionais envolvendo o uso de substâncias potencialmente perigosas, além de outras substâncias altamente tóxicas que são usadas na construção dos painéis solares, como o  Arsenieto de gálio, usado como composto semicondutor à base de arsênio. Tudo isso, para produzir um conversor de baixa capacidade (capaz de processar, em média, de 8 a 15% da energia do sol) com uma vida últil que dificilmente ultrapassará os 20 anos. E os problemas não param por aí: como fazemos para ter energia à noite? Existem duas alternativas, mas nenhuma delas consegue esconder as limitações da suposta energia limpa: ou suplementamos a necessidade de energia noturna (ou em dias nublados) com eletrecidade de origem fóssil ( o que significa manter as termoelétricas a carvão ligadas na rede), ou usamos enormes baterias a base de chumbo, com vida útil de 4 a 5 anos.

Mas se a energia "limpa" é "suja", porque insistimos nela? Aí as coisas começam a ficar mais complexas, mas o documentário de Gibbs e Moore nos dão pistas valiosas para compreender esta questão: primeiro, porque idependente dos impactos gerados ou do maior custo de produção da energia renovável em relação a matriz fóssil, o carvão e o petróleo são muitíssimo mais excassos do que silício, por exemplo. Em segundo lugar, e aqui está a verdadeira face do problema, estas energias alternativas vêm recebendo nas últimas décadas, vultosos subsídios públicos que alimentam não só a rentabilidade das empresas e o marketing político dos governos, como sustentam redes de clientelismo em nome da "defesa do meio ambiente". Tal como o ex-vice-presidente norte-americano Al Gore utilizou o aquecimento global para justificar porque deveríamos comprar carros coreanos ao invés de carros americanos, em "Uma Verdade Inconveniente" (documentário de 2006), muitos governos e grandes corporações (como a google, por exemplo) continuam a usar as mudanças climáticas para justificar porque devemos usar dinheiro público para fechar termoelétricas e instalar aerogeradores ou painéis solares. O fato é, que fica muito mais fácil discutir a substituição de uma tecnologia automotiva ou energética por outra do que parar para pensar se precisamos mesmo de tanto carro ou energia neste mundo. Qual é o limite? Há limite? Supomos que sim, pois todos concordamos que a Terra é fisicamente limitada.

A história se repete a todo o momento; alguns dias atrás nós discutíamos o fato de que os governos do mundo todo preferem concentrar a atenção mundial para a busca de uma vacina ao coronavírus, do que permitir que se faça uma reflexão acerca dos reais motivos que nos colocaram nesta pandemia. claro que em uma condição em que milhares morrem a cada dia, a vacina é mais urgente, mas não discutir abertamente as condições que permitiram o aparecimento do surto virótico, é prever que a pós-pandemia será apenas uma pré-pandemia seguinte. A mesma questão ocorre em relação á geração de energia: se focamos nossa atenção apenas na eficiência e renovabilidade da geração, sem discutir a real necessidade e as consequências da geração de energia, entraremos em um looping de consumo que não poderá ter outro fim que não o colapso, seja com a energia que for. Mais consumo demanda mais energia, e mais energia demanda mais consumo, e assim vamos em uma expiral crescente nos últimos duzentos anos, em que a população da Terra cresceu dez vezes e o consumo cresceu 100 vezes, demonstrando que não é o crescimento populacional o "gargalo" do sistema, e sim o crescimento do consumo (da pequena parcela que pode consumir e consome cada vez mais, já que os 3 bilhões mais pobres do mundo emitem apenas 7% dos gases estufa).

A elite do planeta compra um carro elétrico para "contribuir" com o combate às mudanças climáticas sem ter a menor noção de onde vem a energia elétrica que ela está ajudando a demandar com seu carro novo. É a apologia da ingenuidade em um mundo que sucumbe às narrativas do mercado.

Depois de assistirmos ao documentário, a conclusão nos parece óbvia: perante as forças econômicas do capitalismo, os instrumentos de produção cultural produzem mecanismos de autoengano que retiram a autonomia de escolha dos sujeitos e colocam a civilização em marcha acelerada para o colapso. E antes que este texto ajude a aumentar o número de detratores do tão bem vindo documentário de Jeff Gibbs, é importante que se diga: não se trata de desvelar a falácia do capitalismo verde para desenterrar o fracasso do capitalismo "cinza" dos séculos XIX e XX; trata-se sim, de procurar alternativas que estejam para além do capital, tenha ele a cor que tiver; e nós já temos acúmulo teórico suficiente para garantir que essa alternativa não só é necessária, como é possível de ser construída, se nós permitirmos que em meio do debate acessório, se abra espaço para a discussão do essencial.

Link para o documentário: https://www.youtube.com/watch?v=Zk11vI-7czE





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