Quando um caminho se torna irreversível?
A postagem de hoje é motivada por uma reportagem que li, compartilhada ontem pelo Diário do Centro do Mundo, dando conta de que, segundo dados do IBAMA, em 2019 os garimpos na região amazônica foram responsáveis pelo desmatamento de uma área de 10,5 mil hectares de florestas, um aumento de 23% em relação a 2018, quando foram desmatados 8,5 mil hectares. Se a questão ambiental e indígena já não possuia nenhuma prioridade para um governo que entende que absolutamente tudo está a venda e pode ser negociado, em momentos de crise como o que estamos vivendo, esta questão se agrava ainda mais. Enquanto as pessoas estão focadas em uma crise mundial de saúde que coloca em risco a própria sobrevivência individual de cada um, os garimpeiros, grileiros, madeireiros e fazendeiros se aproveitam da desatenção da mídia para avançar seu projeto de destruição da maior floresta tropical contínua ainda existente no planeta.
Até aí nada de muito novo para um país que já carrega no seu adjetivo pátrio a marca da exploração. Como se pode perceber dos atores acima citados, o sufixo "eiro" representa sempre uma denominação profissional (padeiro, garimpeiro, pedreiro, fazendeiro...), o que nos leva a concluir, por óbvio, que "brasileiro" é aquele que, desde a origem, extraía Pau-brasil (Paubrasilia echinata), a árvore que simbolizou o início da exploração colonial no Brasil, para obtenção de uma resina vermelha utilizada em tingimento de tecidos no século XVI. O Pau-brasil já foi, como de resto praticamente toda a mata atlântica e o cerrado. Desde o governo militar, do "integrar para entregar", a Amazônia é a bola da vez. E tudo isso me fez lembrar uma passagem do brilhante livro "Colapso" do biogeógrafo americano, professor de Geografia e Ciências de Saúde ambiental da Universidade da Califórnia, Jared Diamond. O livro, lançado no Brasil em 2005 pela editora Record, é um passeio pela história da humanidade, revelando interessantíssimas complexidades ambientais que estavam por trás de grandes e bem documentados colapsos civilizatórios em sociedades isoladas que não tiveram capacidade para lidar de forma sustentável com a natureza que os cercava.

O livro, com 683 páginas, é dividido em 16 capítulos, onde, na primeira parte, são discutidas questões extremamente pertinentes como o colapso ambiental da sociedade da ilha de Páscoa, de outras sociedades polinésias, dos Maias em Yucatán e dos Anasazis, na grande bacia da América do Norte. Na segunda parte do livro o autor se propõe a discutir questões contemporâneas, de sociedades que caminham para contextos de colapso, analisando a questão ambiental por trás do genocídio de Ruanda e do colapso atual do Haiti, e os enormes problemas ambientais enfrentados por gigantes econômicos como a China e os Estados Unidos. A pergunta que conduz o leitor a um sobrevôo histórico no Holoceno é sempre a mesma: por quê algumas sociedades humanas trilharam o caminho do colapso, enquanto outras prosperaram? O autor examina sociedades do passado e do presente, tendo sempre como pano de fundo as variáveis ambientais que podem ter influenciado no fracasso destas sociedades que colapsaram.
Mas voltando ao caso da Amazônia, que ativou a minha memória do livro de Jared Diamond, a grande maioria da sociedade brasileira parece desconhecer por completo as consequências que podem advir da perda da sua maior área de floresta, e não estamos aqui falando apenas de perda de biodiversidade (ainda que isto, por si só, já pudesse justificar a urgência de uma ação de controle), mas de questões muito mais graves, que envolvem mudança nos regimes de chuva (com intensificação dos grandes períodos de seca), alteração no regime térmico (especialmente com aumento de períodos extremos) e de remobilização de uma quantidade incalculável de microorganismos patógenos que estavam restritos ao ambiente florestal há milênios, contidos por mecanismos ecossistêmicos de alta complexidade, e que agora, face à destruição da floresta que os controvala, "saltam" para novos ambientes, podendo gerar crises epidêmicas ou mesmo de novas pandemias que poderão nos deixar em uma quarentena eterna.
Esse "descaso" com a natureza, foi o principal motivo para o colapso completo dos aproximadamente 15 mil habitantes da ilha de Páscoa, caso abordado por Jared Diamond no segundo capítulo do livro. O autor nos relata a insistência dos chefes tribais da ilha em erguer estátuas (os famosos "Moais" da ilha de Páscoa) cada vez maiores, com um imenso custo energético - tanto humano quanto de recursos madeireiros, resultando na eliminação de praticamente toda a cobertura florestal original de uma das ilhas mais remotas e frágeis do planeta.Segundo nos informa o autor,
"A ilha de Páscoa é o exemplo mais extremo da destruição de florestas no Pacífico, e está entre os mais extremos do mundo: toda a floresta desapareceu, todas as suas espécies de árvores se estinguiram. As consequências imediatas para os insulares foram a perda de matérias-primas, perda de fontes de caça e diminuição das colheitas".
Quando as colheitas diminuem, o processo se torna igual em todas as sociedades que colapsaram: faltam alimentos, a fome avança, a disputa por comida gera descontrole social e, a partir de certo ponto, perde-se por completo o vínculo que unia as pessoas em torno de um "contrato social" de humanidade. Vale tudo para garantir a sobrevivência, e esse é o fim. Até poderão restar indivíduos sobreviventes desse processo (não na ilha de Páscoa), mas estes indivíduos certamente estarão muito longe de constituir uma parte daquilo que chamamos de humanidade, pois não nascemos humanos, nos tornamos humanos na medida em que interagimos com os outros dentro de determinados parãmetros culturais de alteridade, solidariedade, cooperação e respeito.
"A ilha de Páscoa é o exemplo mais extremo da destruição de florestas no Pacífico, e está entre os mais extremos do mundo: toda a floresta desapareceu, todas as suas espécies de árvores se estinguiram. As consequências imediatas para os insulares foram a perda de matérias-primas, perda de fontes de caça e diminuição das colheitas".
Quando as colheitas diminuem, o processo se torna igual em todas as sociedades que colapsaram: faltam alimentos, a fome avança, a disputa por comida gera descontrole social e, a partir de certo ponto, perde-se por completo o vínculo que unia as pessoas em torno de um "contrato social" de humanidade. Vale tudo para garantir a sobrevivência, e esse é o fim. Até poderão restar indivíduos sobreviventes desse processo (não na ilha de Páscoa), mas estes indivíduos certamente estarão muito longe de constituir uma parte daquilo que chamamos de humanidade, pois não nascemos humanos, nos tornamos humanos na medida em que interagimos com os outros dentro de determinados parãmetros culturais de alteridade, solidariedade, cooperação e respeito.
Acusado por alguns por um determinismo ambiental excessivo, Jared Diamond nos obriga a refletir sobre o que teriam pensado os habitantes da ilha de Páscoa quando viram a última árvore tombar, lá pelos meados do século XVIII. Em que momento as escolhas de uma sociedade (que, no período atual, afeta as escolhas do mundo todo) tornam irreversível o caminho do colapso? Se a última árvore da ilha tivesse sido preservada, teria sido possível evitar o colapso que sucedeu? Certamente que não! Então, em que momento deveriam eles (ou nós, hoje em dia) ter assumido um outro caminho de desenvolvimento? São questões que nos tiram da zona de conforto e nos fazem encarar nossos piores fantasmas. E o autor é ainda mais incisivo na sua afirmação, que soa como um aviso de uma morte anunciada:
"Quando os insulares de Páscoa tiveram dificuldades, não havia para onde fugir, nem a quem pedir ajuda, assim como nós, modernos terráqueos, também não temos a quem recorrer caso precisemos de ajuda. Essas são as razões pelas quais as pessoas vêem o colapso da sociedade da ilha de Páscoa como uma metáfora - a pior hipótese - daquilo que pode estar no esperando no futuro".
Nem o excesso determinista de Diamond, nem o seu olhar típico de um cético pesquisador americano que flerta com as estratégias duvidosas de um capitalismo verde, consegue retirar o brilho da sua obra, sustentada por uma pesquisa de fôlego na história da humanidade e do seu distanciamento com a natureza. Uma visão geral da obra de Diamond pode ser vista na análise do próprio autor, no vídeo abaixo:
Ainda há tempo para evitarmos o colapso? Muito provavelmente ainda há tempo, mas a questão central a ser feita é: há vontade?
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