PARA ONDE VAI ESSE TREM?
Quando Marx e Engels escreviam "A Ideologia Alemã",entre os anos 1845-1846 (a primeira exposição estruturada da concepção materialista da história), eles buscaram articular as categorias essenciais da dialética marxista (como trabalho, modo de produção, forças produtivas, alienação, consciência) para interpretar o movimento do modo de produção capitalista, apontando para a origem das crises cíclicas do capital, as quais desembocariam em uma inevitável crise estrutural de colapso do sistema. Diziam os autores: " Para que ela (a crise) se transforme num poder 'insuportável', quer dizer, num poder contra o qual se faça uma revolução, é necessário que tenha dado origem a uma massa de homens totalmente 'privada de propriedade', que se encontre simultaneamente em contradição com um pequeno mundo de riqueza e de cultura com existência real".
Se é verdade que de lá até aqui o modelo capitalista de produção tem acumulado uma brutal desigualdade social e condenado quase metade da população mundial — 3,4 bilhões de pessoas — a não ter condições de satisfazer as necessidades básicas de vida, também é verdade que o complexo mecanismo cultural e tecnológico do capitalismo tem permitido que o sistema se reinvente constantemente, arrastando essa "massa falida" de uma crise a outra sem, contudo, precipitar o seu colapso final.
O que Marx e Engels não contavam, entretanto, era que a questão ambiental, decorrente da exploração predatória e desenfreada da natureza, pudesse em algum momento da história, representar uma variável decisiva na antecipação do colapso final do sistema. Desde os anos 60 do século XX, muitos autores tem buscado demonstrar a irreconciliável incompatibilidade entre o capitalismo de nossos dias e a sobrevivência de qualquer sociedade ambientalmente viável. Mas poucos o fazem com a profundidade e a propriedade que aparece na obra do professor Luiz Marques, historiador e pesquisador da UNICAMP. O livro "Capitalismo e Colapso Ambiental", lançado originalmente em 2015, alcançou em 2019 a sua terceira edição, demonstrando a urgência e a necessidade do debate dentro do meio acadêmico.
O livro de 736 páginas apresenta uma riqueza impressionante de dados, frutos de uma pesquisa cuidadosa e profunda nas bases científicas de maior credibilidade, para comprovar a inviabilidade de se conseguir levar à frente qualquer modelo de sustentabilidade socioambiental com base nas premissas de produtividade, eficiência e lucro que balizam o sistema capitalista. À medida que avançamos no século XXI, acumulam-se os indícios de que o ciclo histórico de relativo sucesso material e ideológico do capitalismo do século XX pertence a um mundo que definitivamente se foi, nos adverte o autor. E mais: "mesmo o aumento da riqueza, a que a maioria esmagadora da humanidade não terá mais acesso, não se traduz mais em uma melhora da qualidade de vida. Não é possível tal melhora num meio ambiente em rápida degradação e o meio ambiente tem sido a principal vítima colateral da luta desesperada do capitalismo contra o declínio de suas taxas de crescimento, cada vez mais distantes das taxas típicas do segundo pós-guerra". Nada mais pedagógico que momento atual, em que registramos até o dia de hoje, 294.000 mortes por Corona víruis no mundo, para confirmar a afirmação de Luiz Marques. Nossas mortes tiveram início pela falta de controle sanitário em uma sociedade que produz e consome cada vez mais rapidamente e sem prudência, e as mortes foram aceleradas por uma transmissão global que acompanha as rotas de mercado.
Países com grandes mercados de consumo e considerados economicamente "emergentes", tem dilatado seus limites ecológicos a níveis até então impensados. A Índia, por exemplo, já não tem como superar, mantido o seu modelo econômico atual, a maior crise hídrica de sua história, com metade de sua população sofrendo escassez hídrica alta ou extrema. Sua capital, Nova Deli, registra índices de partículas inaláveis que oscilam entre 600 e 1300 partículas por metro cúbico, sendo que o teto de segurança apontado pela Organização Mundial da Saúde é de 50 partículas por metro cúbico de ar em vinte e quatro horas. O Brasil não está fora destas estatísticas, pois o processo em marcha de destruição dos ecossistemas terrestres e marinhos do país, abre uma "caixa de pandora" de consequências imprevisíveis para as próximas décadas, com reflexos diretos na economia brasileira, na qualidade de vida e no agravamento das condições de saúde da população.
Um detalhe curioso acerca das reedições deste livro nos permitem compreender a sua urgência: na edição original de 2015, uma seção do capítulo sobre mudanças climáticas foi intitulada pelo autor com a seguinte interrogação: “Tarde demais para 2°C?” (uma alusão às metas do Acordo de Paris que buscam evitar que o colapso provocado pela mudança climática ao menos não ocorra antes do final do século). Já na edição de 2016 do livro, o mesmo título perdeu a interrogação e se manteve como uma afirmação, já que dados publicados na Nature na quele ano, demonstravam que nós teríamos apenas 5% de chance de alcançar a meta estabelecida. Na terceira edição, revisada em 2018, o subcapítulo em questão passou a ser “Tarde demais para 3°C?”. A realidade se transforma em um ritmo mais veloz que a reedição de um livro que se esgota velozmente, e esse é ponto mais assustador do tema escolhido pelo professor Luiz Marques para dialogar sobre o futuro da humanidade. Marques põe a nú a absoluta ineficiência das negociações internacionais promovidas por "diplomatas, peritos em negociar novas metas de redução da devastação, desde que estas não prejudiquem os planos de crescimento das corporações e de seus governos".
O autor nos faz compreender que o capitalismo global é um trem acelerado que vai despencando no precipício enquanto nós tentamos correr de forma desesperada para o último vagão. Não saltamos do trem, porque temos medo do inesperado e porque estamos carregados de uma fé incontestável na salvação, venha ela do aumento de eficiência energética e tecnológica, fim do subsídio aos combustíveis fósseis, taxas de emissão de carbono, desacoplamento, circularidade e desmaterialização da economia, carros elétricos, plásticos biodegradáveis ou aumento das energias eólica e fotovoltaica. O choque de realidade vem exatamente quando nos damos conta que numa economia fundada na lógica e no imperativo do crescimento, a retórica diplomática, os incentivos ou desincentivos ao mercado e as novas tecnologias jamais serão capazes de implicar na redução do consumo de combustíveis fósseis e menor pressão antrópica sobre o clima, sobre a biosfera e sobre os recursos naturais.
A boa notícia é que ainda há saída para a humanidade, mas esta não está na reinvenção do mesmo modelo que nos trouxe até aqui. O fim da globalização, a valorização dos saberes tradicionais e das comunidades locais, o incentivo às estratégias cooperativas e solidárias, o desmonte das grandes corporações e seus esquemas de corrupção, o repensar dos modelos de produção e de consumo, são questões centrais para enfrentar este momento único porque passa a humanidade. Para Luiz Marques, "uma nova radicalidade do pensamento filosófico e da ação política é requerida por nossos dias. Uma confiança, renascida das cinzas, de que ainda somos capazes, como sociedade e como espécie, de superar o capitalismo em direção a um novo contrato social, fundado, desta feita, num contrato natural". Este é um livro que merece ser lido como fundamento da nossa prática de vida, antes que a terceira edição se esgote e uma quarta nos traga notícias ainda mais assustadoras.

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