A culpa é dos morcegos?


No momento em que me sento para fazer esta postagem, a Organização Mundial da Saúde registra 3.349.786 de casos de COVID-19, com 238.628 mortes (8.657 delas nas últimas 24 horas). A história oficial para o aparecimento desta pandemia há cerca de cinco meses atrás, é de que o vírus teria passado dos morcegos para algum tipo de animal silvestre vendido noMercado de Frutos do Mar de Huanan, no distrito de Jianghan, cidade de Wuhan, província de Hubei, na República Popular da China. A partir do consumo destes animais infectados, o vírus teria saltado para a espécie humana, dando início a esta pandemia que tem sido responsável por alterar profundamente o metabolismo econômico e populacional da vida urbana em praticamente todos os países do mundio. No entanto, um livro publicado por Rob Wallace, biogeógrafo da Universidade de Minnesota, em 2016, nos ajuda a compreender esse processo para além da explicação oficial.


Esta coleção de ensaios intitulada "Big farms make big flu" (Grandes fazendas produzem grandes gripes), escrita por um pesquisador que há anos estuda o comportamento de organismos patogênicos que atacam os seres humanos e, especialmente, a relação destes organismos com o desenvolvimento de uma agricultura industrial no mundo, é bastante elucidativa da catástrofe que estamos vivendo.
Segundo Wallace, a origem destes problemas está diretamente ligada à forma como o modelo capitalista global organiza o processo de produção e venda de alimentos em grande escala, buscando sempre a máxima lucratividade.

Para acompanhar o raciocínio do autor, temos que levar em conta duas questões importantes: primeiro, que os microorganismos patogênicos são muito mais antigos do que o próprio homem, e estão presentes desde longo tempo dentro de ecossistemas nativos, mas controlados por uma complexa rede de interações ecológicas de mutualismos, que faz com que os ecossistemas nativos sejam muito mais robustos e resistentes à disseminação de surtos de doenças. Em segundo lugar, precisamos entender que os sistemas industriais de produção de alimento organizados pelo agronegócio rompem completamente com esta lógica anterior.  Frangos geneticamente modificados, por exemplo, foram criados para crescer três vezes mais rápido, consumindo metade da quantidade de alimento que seus parentes selvagens (a massa corporal de um frango de granja aumentou em cinco vezes em meio século, passando de um peso médio de 0,9 Kg em 1957, para 4,2 Kg em 2005). Essa "produtividade" tem um custo em termos de um sistema imunológico dos animais cada vez mais deprimido. Além disso, face à alta densidade dos animais exigida pelo manejo lucrativo em larga escala, os sistemas de galpões fechados empregados por produtores industriais impedem a exposição aos vírus de baixa patogenicidade que circulam naturalmente pelas populações de aves domésticas criadas por pequenos agricultores. Como seus sistemas imunológicos não são regularmente estimulados por essas cepas de baixa patogenicidade, na estranha e inevitável ocasião em que essas cepas entram nas populações de granja, elas rapidamente evoluem para se tornarem altamente patogênicas e virulentas. 

Portanto, no caso da COVID-19, ainda que aceitemos o fato de que os morcegos tenham sido os hospedeiros intermediários do vírus, é muito mais provável que a contaminação tenha se dado a partir do consumo de frangos ou suínos contaminados (por morcegos que buscam o calor das fazendas para se aquecer à noite), do que propriamente pelo consumo direto de animais silvestres, ainda que esta seja uma possibilidade também.

Temos aí um "fio da meada" interessante de ser analisado para que se possa evitar as futuras pandemias que certamente virão, ainda que, denuncia Rob Wallace, os governos do mundo todo estejam muito mais preocupados em combater o vírus (pela importância econõmica dos grandes laboratórios farmacêuticos) do que evitá-los.

Buscar a origem destas pandemias pode significar a denúncia e a rejeição de todo um modelo tecnológico de produção de alimentos em larga escala, que tem sido amplamente responsável pelo desequilíbrio ecológico do planeta, especialmente a partir de meados do século XX. Não só os habitats selvagens estão cada vez mais reduzidos em face do avanço das lavouras comerciais e áreas de criação de gado (o que força os indivíduos nativos sobreviventes a viverem cada vez mais próximos entre si, com menos alimento e muito maior stress, a combinação ideal para o avanço dos patogênicos), como os criatórios industriais, pressionados pela necessidade crescente do lucro, são incapazes de oferecer uma barreira sanitária eficiente para evitar a disseminação destas doenças. 

Para que os modelos epidemiológicos sejam eficazes na previsão de surtos futuros, eles precisam acessar informações detalhadas sobre as origens geográficas e agroecológicas de diferentes cepas virais. Além disso, eles também precisam acessar amostras de vírus, pois suas informações de sequência genética são usadas para reunir suas trajetórias evolutivas pelo espaço geográfico.

Nesta obra, Wallace fornece uma compilação de incidentes registrados nos quais os países se recusaram a cooperar com a Organização Mundial da Saúde (OMS) e até pressionaram-na a adotar novos sistemas de nomenclatura, a fim de desviar a atenção de certos governos ou indústrias que podem ter alguma responsabilidade por um surto inicial. Os governos certamente estão inclinados a reter informações cruciais sobre o aparecimento local de surtos virais, para que não se tornem o foco da condenação internacional, mas a principal razão para a falta de vontade de muitos governos em cooperar, surge porque o poder do Estado foi capturado pelo grande agronegócio, e enfrentar a origem destas pandemias, é bater de frente com aqueles que lhes financiam. Por isso a opção de apostar nas vacinas, ao invés da prevenção.

Por meio de um estudo de caso, Wallace exemplifica o surto de gripe suína de 2009 como uma pandemia que se mostrou quase impossível de rastrear devido ao imenso poder exercido pelo agronegócio global. O surto de gripe suína, que envolveu um ressurgimento da cepa da gripe H1N1 responsável pelo surto da gripe espanhola em 1918, teve origem em Veracruz, no México, e rapidamente se espalhou pelos Estados Unidos. Apesar de estar além de qualquer dúvida razoável de que o surto tenha se originado em um lote de suínos pertencente a uma subsidiária da Smithfield Foods Inc., sediada em Veracruz, as autoridades agrícolas dos EUA levantaram a hipótese, sem um pingo de evidência, de que o vírus se originou de porcos na Ásia e foi levado ao EUA por um humano. Mas a pandemia de gripe suína de 2009 se originou no México apenas porque o Acordo de Livre Comércio da América do Norte (NAFTA) abriu o caminho para o agronegócio dos EUA transferir sua produção lá em função dos custos mais baixos de mão-de-obra e subsídios estatais. Ao aplicar essa análise estrutural à disseminação da doença, Wallace propõe ironicamente que a gripe suína seja renomeada com o nome de "gripe do NAFTA", porque a pandemia foi iniciada quando o capital da América do Norte passou com sucesso pelo NAFTA.

Ao final do livro, Wallace desenvolve uma análise extraordinária ao demonstrar como a evolução de microorganismos altamente patogênicos e virulentos foi rapidamente acelerada após a globalização de regimes agrícolas capitalistas intensivos. Cada vez mais, as decisões tomadas no interesse da acumulação do capital continuarão a determinar futuras pandemias virais. Caso fossem incorporadas as trajetórias de fluxo de capital do agronegócio em modelos de doenças infecciosas, ficaria mais fácil prever com maior antecedência futuros surtos virais, defende o autor. Essa modelagem certamente teria nos permitido prever e nos preparar melhor para a atual pandemia do Covid-19.

O livro de Rob Wallace é uma belíssima contribuição para pensarmos o nosso presente e transformarmos o nosso futuro. A densidade de informações ali presente é suavizada por um texto bem-humorado e pela didática de alguém que consegue demonstrar de forma muito pedagógica que um mundo cada vez mais complexo não pode ser interpretado a partir de respostas simples. É um mergulho profundo em uma "geografia híbrida", que convoca a economia, a ecologia, a epidemiologia, a biogeogeografia e a ecologia política para conversar.


Comentários

  1. Esta pandemia deve fazer a sociedade moderna pensar em como estão a criação de animais para o consumo humano e o quanto estamos nos afastando da naturalidade para manejos químicos e artificiais trazendo grandes perigos para a sude humana e ao meio ambiente. Pois como foi colocado no texto: "Buscar a origem destas pandemias pode significar a denúncia e a rejeição de todo um modelo tecnológico de produção de alimentos em larga escala, que tem sido amplamente responsável pelo desequilíbrio ecológico do planeta, especialmente a partir de meados do século XX".

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