A cosmologia dos povos andinos nos diz que vivemos um período de Pachakuti (mudança da Terra), a mudança de um longo ciclo de 500 anos, iniciado há cerca de 2000 anos atrás. O último Pachakuti (o quarto), segundo a tradição andina, se iniciou em 1532, com a chegada dos espanhóis ao Perú; um ciclo de 500 anos de escuridão e opressão. O quinto Pachakuty, acreditam os povos ancestrais, será um ciclo de luz; nele, os povos originários da América deixarão de ser oprimidos e haverá um renascimento da glória dos antepassados. A professia é de que o quinto Pachakuti tenha início em algum período entre 1992 (os 500 anos da chegada dos europeus na América) e 2032, e o período compreendido entre estas duas datas é considerado um período confuso e de transição, que deverá nos preparar para este novo período.
Cosmologias à parte, o certo é que vivemos tempos realmente curiosos por aqui; tempos em que o conhecimento parece cada vez menos valorizado; tempos de "pós-verdade", onde os fatos importam muito menos do que as narrativas que sobre eles são construídas. Em nome do dito "progresso", desenvolvemos uma forma de vida completamente avessa aos princípios do equilíbrio, da prudência e do respeito com todas as outras criaturas com quem compartilhamos a existência e das quais dependemos, ainda que não sejamos capazes de admiti-lo. Em nome do mercado e da felicidade ilusória do consumo e da propriedade, produzimos um desequilíbrio tal com a natureza, que muito repentinamente nos vimos aprisionados em uma pandemia mundial, que nos tras a triste memória das experiências vividas pelo mundo em 1918, quando mais de 50 milhões de pessoas perderam a vida na pandemia da gripe espanhola. Estas memórias de mais de um século reavivam outras de igual idade, como aquele discurso proferido por Ruy Barbosa, na tribuna do senado federal há 116 anos atrás:"De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto".
Talvez, mesmo que não nos demos conta, estejamos presos em uma cápsula do tempo, em que as pandemias, as tiranias e as iniquidades ficam gravitando no entorno do nosso projeto de sociedade ao longo dos séculos, sem que nada saia do lugar. Isso me faz lembrar a genialidade de Tomasi di Lampedusa, popularizado pelo grande cineasta italiano Luchino Visconti em "O Leopardo": “Algo deve mudar para que tudo continue como está”. Talvez seja isso mesmo que tem nos impedido de olhar para a frente, de acalentar os sonhos de um mundo menos desigual, onde a felicidade não venha enrolada em papel de presente nas datas do calendário comercial. Afinal, um país onde 7,2 milhões de pessoas têm insegurança alimentar grave (passam fome), onde 35,7% da população vivem sem esgoto, mas onde apenas 20,1% vive sem internet (dados do Estadão, de 6/11/2019), nos dá uma ideia de que o pão e circo romanos parece que já perdeu o pão, e o circo segue funcionando com palhaços famintos e conectados.
Neste cenário civilizatório caótico, ter ou não orgulho de ser 1 dos brasileiros que a cada 1000 consegue completar um curso de doutorado, já passa a ser quase uma questão filosófica. Então, antes que comecemos a pedir desculpas por insistirmos em pensar, em acreditar na ciência e na capacidade humana de refletir sobre a realidade e de criar novas realidades, resolvi começar este blog. Um respiro de ar fresco em uma atmosfera contaminada. Em um momento em que a sala de aula está fechada e que não posso convidar meus alunos para uma conversa presencial, talvez os labirintos da internet possam nos levar para novos e promissores lugares, onde o desejo do conhecimento ainda seja valorizado como uma virtude.
Ouvi certa vez do professor Andrew Delbanco, da Universidade de Columbia, que a docência é uma eterna luta contra a morte, já que nossas ideias sobrevivem muito além do nosso corpo físico; décadas depois de já termos abandonado este planeta, nossas reflexões continuarão vivas entre os alunos dos nossos alunos; e, talvez, esse seja o principal motivo porque continuamos insistindo no caminho da ciência, na busca da descoberta, na reflexão sobre as diferentes "verdades" que aparecem nas telas de LCD a cada dia.

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