E se não tivéssemos sido "descobertos"?
A sugestão de leitura de hoje não é nova, mas absolutamente pertinente em tempos de pandemia. A obra do professor emérito de História, Geografia e Estudos Americanos da Universidade do Texas, falecido em 2018, foi lançada originalmente em 1986, e é um dos grandes clássicos da história ambiental e ecologia política. Neste momento, o livro "Imperialismo Ecológico: a expansão biológica da Europa 900-1900" nos mostra especialmente como a disseminação de doenças tem sido usada desde o século XV como um instrumento de conquista e dominação por parte dos europeus que aqui chegaram.
![Imperialismo ecológico por [Alfred W. Crosby]](https://m.media-amazon.com/images/I/51kV5j1z56L.jpg)
O foco da discussão do Crosby está concentrado no processo de invasão biológica promovida pelos conquistadores europeus em outras regiões do planeta, por meio daquilo que o autor denominou de “biota portátil” . Crosby nos mostra com uma grande quantidade de exemplos e com um texto envolvente, como é que espécies de plantas, animais ou mesmo microorganismos trazidos do Velho Mundo foram responsáveis por expulsar ou até mesmo eliminar parte da flora, fauna e dos habitantes nativos de distintas regiões do mundo por eles conquistadas, dando origem às “Neoeuropas”, sendo elas a Austrália, a Nova Zelândia e a América. Somos levados a compreender a partir da leitura do livro que o processo de "colonização" do Novo Mundo só foi efetivamente exitoso para os europeus porque esteve sustentado por uma poderosa guerra biológica por eles deflagrada.
A obra, acima de tudo, nos oportuniza refletir sobre aquilo que ganhamos e o que perdemos desde que a sociedade humana abandonou o nomadismo e se tornou sedentária, por volta de 10.000 a 12.000 anos atrás, na assim chamada Revolução Neolítica. Os antigos caçadores e coletores estavam relativamente acostumados com suas "pragas pessoais" (piolhos, moscas e parasitas internos), mas eles se organizavam em grupos pequenos e permaneciam no mesmo lugar por tempo insuficiente para que se acumulasse a sujeira necessária para a multiplicação de um exército de ratos, baratas, moscas e outros insetos transmissores de patógenos. No entanto, quando os seres humanos se tornaram sedentários, a situação se alterou completamente, com o surgimento de uma enorme quantidade de doenças até então desconhecidas. Vejamos o trecho abaixo extraído da obra de Crosby:
"Os caçadores e coletores dispunham, no máximo, de um animal domesticado: o cão. Os agricultores e criadores do Novo Mundo não domesticaram mais do que três ou quatro espécies. Os povos civilizados do Velho Mundo tinham rebanhos inteiros de gado, carneiros, cabras, porcos, cavalos e assim por diante. Viviam com suas criaturas, compartilhando com elas a mesma água, o mesmo ar e o mesmo ambiente, e, assim, muitas das mesmas doenças. O efeito sinérgico da convivência íntima dessas diferentes espécies - humanos, quadrúpedes, aves e respectivos parasitas - foi a produção de novas doenças e de variações das antigas. Os vírus oscilavam, em idas e vindas, entre os humanos e o gado, provocando ora a varíola humana, ora a varíola bovina. Cães, reses e humanos intercambiavam vírus ou combinavam vírus diferentes, o que resultou em três novas doenças, uma para cada espécie: a cinomose, a peste bovina e o sarampo. Humanos, suínos, equínos e aves domesticadas entraram em contato com pássaros selvagens e contraíram e ainda contraem a gripe, produzindo periódica e perpétuamente, nesse contato, surtos violentos que passam de uns para os outros. Ao domesticar animais e levá-los ao seio humano - algumas vezes de forma literal, como quando mães humanas amamentavam animais órfãos - os humanos criaram doenças que seus ancestrais caçadores e coletores nunca ou raramente conheceram".
Em uma outra parte do texto, o autor faz uma afirmação que nos faz pensar muito no momento que estamos vivendo no dia de hoje: "O sistema imunológico do indivíduo está sintonizado com a parte do mundo a que esse indivíduo pertence, mas a ambição humana, a agressão, a curiosidade e a tecnologia lançam-no, o tempo todo, ao contato com o resto do mundo". Parece claro, portanto, que a produção e a disseminação dos surtos de contágio epidêmico estão sempre e estreitamente ligados ao desejo humano de expansão dos limites. Vejam que a primeira pandemia a que se tem registro no planeta, chamada de "Peste de Justiniano", aconteceu por volta do século VI D.C. Provocada pela peste bubônica, transmitida através de pulgas em ratos contaminados, a enfermidade matou entre 500 mil a 1 milhão de pessoas apenas em Constantinopla. Ela iniciou no Egito, mas aproveitou as rotas comerciais para se espalhar pela Síria, Turquia, Pérsia e parte da Europa. A diferença da pandemia que vivemos hoje, excetuando por óbvio todo avanço que tivemos no conhecimento médico (ainda que o atual Ministro da Saúde do Brasil tenha declarado na semana passada que estamos caminhando às cegas com a infecção do COVID-19), é a velocidade e a escala com que isso se dissemina. Na Peste de Justiniano a pandemia ficou restrita à porção do mundo que mantinha rotas comerciais naquele momento, basicamente o entorno do Mar Mediterrêno e Oriente Médio; e dada a velocidade com que as pessoas se deslocavam, a pandemia demorou cerca de 200 anos para acabar. Hoje, iniciada a pandemia na China em novembro/dezembro de 2019, em três meses o vírus colocou o mundo inteiro em isolamento, por conta da velocidade com que as rotas aéreas, comerciais e turísticas se distrinúem no planeta.
Voltando ao livro de Crosby, o autor dedica um capítulo inteiro da sua obra para a discussão do intercâmbio de doenças entre o Velho e o Novo Mundo, mas ele é enfático ao afirmar: "O intercâmbio de doenças infecciosas - isto é, de germes, coisas vivas dotadas de um ponto de vista geográfico como qualquer outra criatura visível - entre o Velho Mundo e susas colônias americanas e australianas foi espantosamente unilateral". Ou seja, parece indiscutível que os agentes biológicos, em especial os patogênicos, serviram (e continuam a servir até hoje) como importantes instrumentos de controle e dominação dos povos, ao lado da religião e da cultura. Se olharmos para o caso brasileiro atual, isso parece bastante evidente, pois ainda que o país se orgulhe de ser o segundo maior produtor e exportador mundial de soja, não somos capazes de suprir nossas necessidades internas sequer de equipamentos de proteção individual contra a disseminação de vírus. Temos uma enorme rede de Universidades e Institutos Federais que estudam e projetam equipamentos os mais variados, mas a quase totalidade dos respiradores que necessitamos, são comprados da China. De que nos servem todas as supostas riquezas do agronegócio e da mineração que exportamos, se continuamos dependendo das metrópoles estrangeiras para salvar a nossa vida?
É certo que a desigualdade inerente ao capitalismo se escancara nestes momentos de crise, e a obra de Alfred Crosby nos ajuda a pensar se é este mesmo o caminho que desejamos para o futuro da humanidade.
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